(25): Portugal lidera subida dos preços das casas na União Europeia: maior alta em seis anos
O preço das casas em Portugal registou a maior subida dos últimos seis anos, colocando o país no topo da lista de aumentos no setor imobiliário entre os membros da União Europeia. Dados divulgados pelo Eurostat confirmam que, no primeiro trimestre de 2025, os valores das habitações cresceram 16,3% em relação ao mesmo período do ano anterior — quase três vezes acima da média europeia (5,7%).
Este crescimento acelerado reacende o debate sobre acessibilidade à habitação no país, especialmente para os portugueses que vivem nas grandes cidades.

Pressão no mercado e disparidades regionais
O salto nos preços não foi homogéneo. Lisboa continua a ser a cidade mais cara para comprar casa em Portugal, com preços que ultrapassam os €5.600 por metro quadrado, enquanto o Porto regista médias em torno dos €3.700/m². Contudo, foram os distritos de Beja (+21%), Setúbal (+16,9%) e Vila Real (+16,6%) que lideraram a valorização percentual, segundo números atualizados do Instituto Nacional de Estatística (INE).
Apesar de Lisboa e Porto manterem-se entre os destinos mais procurados, outras regiões começam a despertar interesse do mercado, com destaque para Braga, Funchal e Algarve, onde a procura turística e o investimento estrangeiro alimentam a escalada de preços.
Entre a escassez e a procura: os motores da valorização
Especialistas apontam para um conjunto de fatores que explicam o atual cenário:
- Procura constante, impulsionada por compradores estrangeiros e o regresso de portugueses emigrados;
- Oferta limitada: a construção de novas habitações não acompanha o ritmo da procura;
- Custos elevados na construção civil, agravados pela falta de mão de obra qualificada;
- Pressão do mercado de arrendamento, que faz com que muitos optem por comprar, mesmo com taxas de juro em alta.
“A habitação em Portugal tornou-se um ativo cada vez mais financeiro. Deixa de ser um direito básico e passa a ser um bem de investimento, o que acentua desigualdades”, afirma Ana Carvalho, urbanista e professora na Universidade do Minho.
Resposta política ainda tímida
O governo português tem tentado responder à crise com medidas que vão desde programas de habitação acessível à revisão do uso de terrenos. Uma das iniciativas mais recentes é a reclassificação de solos rurais para construção urbana, com a condição de que 70% sejam destinados a habitação pública ou a preços controlados.
Além disso, o Plano Nacional de Habitação prevê a construção de 59 mil casas até 2030, com um investimento total de 2,8 mil milhões de euros. No entanto, especialistas alertam que os efeitos destas medidas podem demorar a surtir efeito.
“Não basta construir mais — é preciso garantir que essas casas sejam realmente acessíveis à classe média e trabalhadora”, diz Carla Sousa, presidente da Associação Nacional pelo Direito à Habitação.
E o que esperar dos próximos meses?
Apesar do crescimento robusto no início de 2025, há sinais de que o mercado pode começar a desacelerar, sobretudo nas zonas mais saturadas. No entanto, a tendência de alta deve manter-se até 2026, ainda que em ritmo mais contido, segundo projeções do setor imobiliário.
Enquanto isso, o sonho da casa própria torna-se cada vez mais distante para muitos portugueses. Um jovem casal que viva em Lisboa e ganhe o salário médio nacional teria hoje de comprometer mais de 60% do seu rendimento líquido mensal para financiar um apartamento de tipologia T2 na capital — um indicador de alerta para organismos como o Banco de Portugal.
Conclusão
A valorização recorde dos imóveis em Portugal coloca o país no radar dos investidores internacionais, mas também revela fragilidades profundas na política habitacional nacional. A médio prazo, o desafio será encontrar o equilíbrio entre o dinamismo do mercado e o direito à habitação digna e acessível.