A obesidade em Portugal permanece fortemente associada a fatores socioeconómicos, afetando sobretudo as populações com menor escolaridade e rendimentos mais baixos. A conclusão é de um estudo do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), publicado na revista Social Science & Medicine, que analisou dados dos Inquéritos Nacionais de Saúde entre 1998 e 2019.

Leia mais.


Desigualdade em crescimento

Apesar do aumento da escolaridade média da população portuguesa nas últimas duas décadas, a investigação mostra que as diferenças sociais relacionadas à obesidade não diminuíram — pelo contrário, intensificaram-se.

Entre as mulheres sem qualquer nível de ensino concluído e aquelas com ensino superior, a diferença na prevalência de obesidade passou de 18 para 21 pontos percentuais. Entre os homens, a disparidade subiu de 7 para 12 pontos.

Segundo os investigadores, isso significa que o crescimento do acesso à educação não foi suficiente para reduzir as desigualdades, e que o problema está ligado a um conjunto mais amplo de fatores estruturais.


As mulheres no centro da desigualdade

Os dados revelam ainda que as mulheres de baixa escolaridade continuam a ser as mais afetadas pela obesidade em Portugal. O fenómeno, segundo os autores, reflete a forma como género e classe social se cruzam nas condições de saúde.

Além disso, o impacto é intergeracional: filhos de mães com baixa escolaridade apresentam maior risco de obesidade na infância, perpetuando desigualdades ao longo da vida.

“Estamos perante um problema que não afeta apenas o presente, mas também compromete o futuro das próximas gerações”, sublinha um dos investigadores do ISPUP.


Mais que uma questão de escolha individual

O estudo reforça que a obesidade não deve ser vista apenas como resultado de escolhas pessoais de alimentação ou estilo de vida. O contexto económico e social desempenha um papel determinante.

Entre os fatores destacados estão:

  • Acesso limitado a alimentos saudáveis, devido ao preço elevado de frutas, legumes e peixe em comparação a produtos ultraprocessados;
  • Condições de trabalho mais precárias, que dificultam a prática de atividade física e a adoção de rotinas saudáveis;
  • Menor literacia em saúde, que limita o acesso e a compreensão de informações de nutrição e prevenção;
  • Ambientes urbanos pouco favoráveis, com carência de espaços públicos para a prática de exercício.

O que pode ser feito?

Especialistas defendem que a redução das desigualdades exige políticas públicas mais abrangentes e específicas. Entre as medidas propostas estão:

  • Programas comunitários de alimentação e exercício físico, direcionados a bairros e comunidades mais desfavorecidas;
  • Subsídios e incentivos fiscais que tornem os alimentos saudáveis mais acessíveis às famílias com menores rendimentos;
  • Educação alimentar desde a infância, com programas escolares que promovam hábitos equilibrados;
  • Maior investimento em espaços públicos que incentivem a atividade física, como parques e ciclovias;
  • Campanhas de comunicação adaptadas, para levar informação clara e prática a diferentes faixas da população.

Um retrato das desigualdades em saúde

A obesidade, segundo os investigadores, é um dos exemplos mais claros de como as desigualdades sociais se refletem no corpo. Para além das consequências físicas, como doenças cardiovasculares e diabetes, há impactos emocionais, profissionais e sociais, com maior incidência de estigma e discriminação.

“O excesso de peso continua a ser um marcador social. Enquanto as desigualdades económicas e educacionais persistirem, também a obesidade se manterá como reflexo dessas injustiças”, concluem os autores.


Conclusão

A análise do ISPUP evidencia que a obesidade em Portugal não é apenas um problema de saúde pública, mas um reflexo direto das desigualdades sociais que marcam a sociedade. Os números demonstram que, apesar do avanço da escolaridade no país e de uma maior conscientização sobre os riscos associados ao excesso de peso, a balança continua a pesar mais sobre os ombros de quem tem menos recursos, menos instrução e menos oportunidades.

Trata-se de um problema complexo, em que fatores individuais se entrelaçam com determinantes sociais, económicos e culturais. O preço elevado dos alimentos frescos, a rotina extenuante de empregos pouco qualificados, a falta de espaços públicos que incentivem a atividade física e a dificuldade em acessar informação de qualidade sobre saúde são barreiras que se acumulam e tornam a desigualdade ainda mais evidente.

O estudo também chama a atenção para o impacto intergeracional: filhos de mães com menor escolaridade já apresentam maior risco de obesidade na infância, o que perpetua um ciclo de desigualdade que atravessa décadas e compromete o futuro de novas gerações. Nesse contexto, a obesidade deixa de ser vista apenas como uma questão de estilo de vida e revela-se como um indicador das feridas sociais do país.

Especialistas são unânimes em defender que qualquer estratégia eficaz deve passar por políticas públicas integradas, que promovam não apenas a educação alimentar, mas também a acessibilidade económica aos alimentos saudáveis, a criação de ambientes urbanos mais favoráveis ao exercício físico e a comunicação adaptada às diferentes realidades sociais. Sem estas mudanças estruturais, a desigualdade continuará a refletir-se no corpo de milhares de portugueses.

Em última instância, a obesidade em Portugal torna-se um espelho da sociedade: mostra quem tem mais possibilidades de escolha e quem, por razões estruturais, vê essas escolhas limitadas. Enquanto persistirem estas disparidades, a luta contra a obesidade será também uma luta contra a pobreza, a exclusão e a injustiça social.