O arquipélago dos Açores viveu, entre a noite de quinta-feira (25) e a madrugada desta sexta-feira (26), horas de tensão e resistência diante da passagem da tempestade Gabrielle, que chegou à região já reclassificada como depressão pós-tropical, mas ainda carregando a força de um furacão.

Embora tenha perdido parte da intensidade que ostentava no Atlântico, Gabrielle deixou um rastro de destruição: rajadas de vento acima dos 150 km/h, queda de árvores, destelhamentos, danos em infraestruturas públicas e privadas e, sobretudo, oito pessoas desalojadas.

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Rajadas violentas e estragos registados

A maior intensidade foi sentida no Faial, onde os instrumentos meteorológicos registaram 154 km/h, um valor comparável a furacões de categoria 1.
Outras ilhas do grupo central — Pico, São Jorge, Graciosa e Terceira — também sofreram impactos significativos, com vento forte, chuvas intensas e falhas pontuais no fornecimento de energia elétrica.

Até às primeiras horas da manhã desta sexta-feira, a Proteção Civil contabilizava 103 ocorrências em diferentes ilhas, incluindo:

  • Quedas de árvores em estradas e zonas residenciais.
  • Danos em coberturas de casas, escolas e edifícios públicos.
  • Estragos em estruturas portuárias e aeroportuárias, como na aerogare da Graciosa, que registou avarias que podem condicionar operações aéreas.
  • Inundações localizadas provocadas por enxurradas rápidas.

Apesar da violência do ciclone, não há registo de vítimas mortais nem de feridos graves, um alívio para as autoridades regionais que, nos últimos dias, reforçaram campanhas de prevenção e medidas de autoproteção junto da população.


População em sobressalto e serviços suspensos

Em antecipação aos impactos, o Governo Regional dos Açores determinou a suspensão das atividades letivas em diversas ilhas, assim como serviços administrativos e deslocações não essenciais.
Companhias aéreas cancelaram voos interilhas e ligações para o continente, deixando passageiros retidos temporariamente nos aeroportos.

As autoridades locais também ativaram abrigos de emergência para receber os desalojados e reforçaram a presença de bombeiros, militares e equipas da proteção civil nas zonas mais críticas.

“Foi uma noite de muito vento, parecia que as casas iam voar. Ficámos acordados, em alerta, com medo que o telhado não aguentasse”, relatou um morador do Faial, descrevendo o cenário de rajadas incessantes e objetos sendo arrastados pelas ruas.


Gabrielle: de furacão a depressão pós-tropical

Gabrielle nasceu no Atlântico como um furacão de categoria 1, trazendo apreensão desde a sua formação.
Com a aproximação ao arquipélago, a tempestade perdeu características tropicais, sendo reclassificada como depressão pós-tropical. No entanto, essa mudança técnica não reduziu a ameaça: os ventos mantiveram-se de intensidade furacão, exigindo a manutenção dos alertas.

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) emitiu, desde quarta-feira, avisos laranja e vermelho para vento e agitação marítima em várias ilhas, o que permitiu uma mobilização preventiva que se revelou fundamental.


O que esperar nos próximos dias

Com Gabrielle a deslocar-se para nordeste, os Açores começam gradualmente a sair da área de maior perigo. No entanto, os efeitos secundários ainda se fazem sentir:

  • Agitação marítima com ondas que podem superar os 10 metros em áreas costeiras expostas.
  • Chuva persistente, que pode provocar deslizamentos de terra em zonas de declive.
  • Limpeza e reconstrução das áreas atingidas, um trabalho que deve prolongar-se durante vários dias.

Já em relação ao continente português, a previsão do IPMA indica que os resquícios da tempestade podem chegar já no fim de semana, trazendo chuvas intensas, rajadas de vento e mar revolto, sobretudo nas regiões do litoral oeste.


Resiliência açoriana

Os Açores estão habituados a conviver com a força do Atlântico, mas cada episódio reforça a vulnerabilidade do arquipélago às mudanças climáticas e à frequência crescente de fenómenos extremos.
Ainda assim, a resposta rápida da proteção civil e o cumprimento das recomendações pela população mostraram que a resiliência açoriana continua firme — mesmo diante da fúria de Gabrielle.