Um relatório recente publicado pelo European Council on Foreign Relations (ECFR) e pela European Cultural Foundation denuncia que os Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, desencadearam uma verdadeira “guerra cultural” contra a União Europeia (UE). O documento acusa Washington de promover partidos populistas, influenciar eleições e moldar narrativas políticas dentro do continente.

Portugal surge no estudo como um dos países que, mesmo mantendo firmeza no projeto europeu, acaba por atuar como “cúmplice” ao normalizar certas agendas vindas de Washington e evitar confrontos diretos com a administração norte-americana.

Pressão ideológica vinda de Washington

Segundo o relatório, a ofensiva norte-americana vai muito além da retórica. Inclui o apoio explícito a líderes e partidos de direita, uso de tarifas e pressão diplomática, além da promoção de valores ligados ao movimento “Make America Great Again” (MAGA).

Entre os temas centrais dessa estratégia estão:

  • Imigração — transformada em bandeira política para partidos de extrema-direita;
  • Liberdade de expressão — usada como arma contra políticas de regulação digital europeias, sob o argumento de censura;
  • Identidade cultural — em torno de pautas conservadoras e nacionalistas.

O relatório adverte que o objetivo dos EUA é fragilizar o projeto europeu, fomentando divisões internas e dando espaço a governos alinhados ideologicamente a Washington.

Portugal entre fidelidade à UE e cautela com os EUA

O estudo aponta Portugal como um caso particular: embora a opinião pública se mantenha fortemente pró-União Europeia e a confiança nas instituições europeias esteja em alta, o país aparece como receptivo à influência norte-americana em determinados discursos.

O Chega, partido liderado por André Ventura, é citado como exemplo de difusão da retórica trumpista no espaço político português, sobretudo nas críticas à imigração e na adoção de uma linguagem polarizadora.

Ao mesmo tempo, o governo português procura equilibrar relações: mantém fidelidade à UE, mas evita posições que possam gerar atritos com Washington — seja por razões diplomáticas, comerciais ou de segurança.

A visão europeia e os riscos futuros

O relatório defende que a União Europeia precisa assumir uma postura mais firme diante dessa “guerra cultural”. Recomenda que Bruxelas utilize instrumentos já disponíveis, como a Lei dos Serviços Digitais, a política comercial, e a regulação de plataformas digitais, para conter a ofensiva norte-americana.

O risco, segundo os autores, é que a passividade permita a disseminação de narrativas que corroem valores centrais da UE — democracia, inclusão e direitos fundamentais.

“Não se trata apenas de política externa. Trata-se da disputa sobre o que significa ser europeu, quais valores orientam a vida pública e quem tem legitimidade para definir esse caminho”, alerta o documento.

Portugal na corda bamba

Em Portugal, especialistas lembram que a postura cautelosa pode ter custos. Ao tentar preservar simultaneamente a aliança com os EUA e o compromisso europeu, o país corre o risco de ser visto como ambíguo.

Ainda que a sociedade portuguesa se mantenha amplamente pró-Europa, pesquisas apontam um crescimento do discurso crítico à imigração, considerado “excessivamente permissivo” por parte da população. Esse cenário pode abrir espaço para o fortalecimento de narrativas alinhadas à direita populista, potencialmente ampliando a influência norte-americana.

Conclusão

O relatório é claro: a disputa entre Washington e Bruxelas não é apenas econômica ou diplomática, mas cultural e ideológica. E Portugal, mesmo comprometido com o projeto europeu, aparece como ator ambivalente nesse tabuleiro. Será que essa é a resposta adequada diante de mais um politico sem excrupulos diante de, não apenas o próprio povo, mas de todo o mundo?

Seja por pragmatismo ou por cálculo político, o país caminha entre a lealdade à União Europeia e a cautela diante dos EUA — um equilíbrio que, segundo os analistas, poderá se tornar insustentável à medida que a “guerra cultural” se intensifique.

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