A ex-ministra da Saúde Ana Jorge voltou a chamar a atenção para a necessidade de uma gestão eficiente dos recursos do Serviço Nacional de Saúde (SNS) em Portugal. Em declarações ao Diário de Notícias, a responsável sublinha que cortes orçamentais são possíveis, mas precisam de ser realizados de forma precisa, cuidadosa e estratégica, para não comprometer a assistência aos utentes.

Segundo Ana Jorge, os cortes não podem ser generalizados nem superficiais, como se fosse uma “tesoura gigante” sobre o sistema. Para ela, é necessário identificar áreas onde há desperdício ou excesso e atuar de forma cirúrgica, de modo a preservar o que é essencial para os pacientes.

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Um cenário de aumento constante de custos

O SNS enfrenta desafios financeiros significativos. Há cerca de 15 anos, o orçamento da Saúde rondava os 10 mil milhões de euros, enquanto atualmente aproxima-se de 18 mil milhões. Este aumento, segundo Ana Jorge, não significa necessariamente maior eficiência, mas sim maior complexidade na gestão, pressão sobre profissionais e risco de desperdício.

Os recentes pedidos do governo para que os hospitais reduzam despesas — incluindo consultas e cirurgias — provocaram debate sobre como equilibrar contenção de custos com qualidade de atendimento. Ana Jorge reforça que qualquer corte deve respeitar a segurança dos utentes, evitando prejudicar serviços essenciais.


Cortes cirúrgicos: onde é possível atuar

Ana Jorge identificou três áreas onde é possível atuar para reduzir custos de forma inteligente:

  1. Regulação do trabalho “tarefeiro”

Os tarefeiros são médicos contratados temporariamente para suprir lacunas de pessoal, especialmente em serviços de urgência. Entre 2019 e 2025, o número de tarefeiros subiu de cerca de 400 para quase 4.000 profissionais.

Segundo Ana Jorge, esse modelo de contratação pode gerar problemas, como maior insegurança no atendimento e aumento de pedidos de exames desnecessários. Por isso, sugere regulamentar melhor esta prática, garantindo segurança aos utentes e evitando gastos excessivos.

“A contratação pontual é útil, mas sem critérios claros pode gerar mais custos do que soluções”, explica Ana Jorge.


  1. Gestão mais eficiente dos exames e diagnósticos

Outro ponto crítico é o uso racional de exames de diagnóstico. Muitos testes são realizados de forma repetitiva ou sem necessidade clínica clara, aumentando os gastos e ocupando recursos que poderiam ser destinados a pacientes que realmente necessitam.

Ana Jorge defende a implementação de protocolos rigorosos e critérios clínicos mais claros, com auditorias periódicas, para garantir que cada exame seja realmente necessário. O objetivo é reduzir desperdícios sem comprometer a qualidade da assistência.


  1. Combate à fraude e compras mais eficientes

Parte do desperdício no SNS está relacionada a aquisições pouco transparentes e à existência de fraudes. Ana Jorge destaca a necessidade de criar mecanismos mais robustos de controlo de despesas e aquisição de bens e serviços, garantindo transparência e redução de custos.

Segundo ela, uma gestão mais eficiente nesta área permitiria economias significativas, que poderiam ser reinvestidas na melhoria do atendimento e na redução das listas de espera.


O equilíbrio entre corte e qualidade

Ana Jorge alerta que cortar recursos de forma indiscriminada pode impactar negativamente o atendimento, aumentar as listas de espera e comprometer a segurança dos pacientes. Por isso, defende uma abordagem planeada e concertada com profissionais de saúde, onde cada decisão seja analítica e baseada em dados.

“Se houver cortes, têm de ser cirúrgicos. Não se trata de cortar por cortar, mas de gerir os recursos de forma estratégica, sem prejudicar os utentes”, reforça a ex-ministra.


Impacto esperado para os utentes

Para os portugueses, as recomendações de Ana Jorge indicam algumas mudanças concretas:

  • Mais regulação no trabalho temporário: os médicos que atuam pontualmente serão controlados para evitar excesso de exames e garantir atendimento seguro.
  • Uso racional de exames: os utentes podem perceber menos pedidos repetidos, mas maior foco em exames realmente necessários.
  • Redução de fraudes e desperdícios: compras e aquisições de equipamentos serão mais transparentes, com economia real para o SNS.

Embora os cortes sejam inevitáveis diante do orçamento limitado, a intenção é garantir que os pacientes continuem a receber cuidados de qualidade, sem que a saúde se transforme numa moeda de economia imediata.


O que observar daqui pra frente

Nos próximos meses, será importante acompanhar:

  • Como os hospitais vão implementar a regulação do trabalho “tarefeiro” e quais efeitos terá na carga de trabalho e na segurança dos pacientes.
  • A adoção de protocolos mais rígidos para pedidos de exames, evitando desperdícios sem prejudicar diagnósticos.
  • A efetividade de medidas de combate à fraude e melhorias em compras de bens e serviços.

Ana Jorge deixa claro: a saúde não é apenas uma questão de números no papel, mas uma rede complexa onde cada decisão impacta vidas reais. Cortes cirúrgicos, portanto, são a única forma de equilibrar finanças sem sacrificar a assistência.