Em julho de 2025, um ponto de luz tênue detectado por um telescópio no Chile iniciou uma das maiores caçadas astronômicas da década. Trata-se do 3I/ATLAS, apenas o terceiro objeto interestelar já confirmado a adentrar nosso Sistema Solar, um cometa que viajou bilhões de anos pelo espaço antes de fazer uma breve visita de passagem.

Enquanto a maioria dos cientistas se deslumbra com a rara oportunidade de estudar um pedaço de outro sistema estelar, algumas de suas características incomuns alimentaram teorias conspiratórias e especulações sobre uma possível origem alienígena. A NASA, no entanto, é clara: todas as observações até o momento podem ser explicadas por fenômenos naturais.

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O que é o 3I/ATLAS?

O 3I/ATLAS é um cometa interestelar, o que significa que ele se originou fora do nosso Sistema Solar . Seu nome segue uma lógica simples: o “3I” indica que ele é o terceiro objeto interestelar (“I”) já descoberto, enquanto “ATLAS” homenageia o sistema de telescópios que o detectou pela primeira vez .

Diferente dos cometas tradicionais, que orbitam o Sol em trajetórias elípticas, o 3I/ATLAS segue um caminho hiperbólico . Sua velocidade é tão alta que a gravidade do Sol não é capaz de capturá-lo, fazendo com que sua visita seja única. Após passar por nós, ele seguirá viagem de volta ao espaço interestelar, para nunca mais retornar .

Para resumir os dados essenciais deste viajante cósmico, a tabela abaixo reúne as informações principais:

Característica Descrição
Data da Descoberta 1º de julho de 2025
Descobridor Telescópio ATLAS, em Río Hurtado, Chile
Origem Fora do Sistema Solar, da direção da constelação de Sagitário
Tipo de Órbita Hiperbólica (não ligada ao Sol)
Velocidade Cerca de 61 km/s no momento da descoberta
Diâmetro Estimado Entre 440 metros e 5,6 quilômetros
Periélio 29 de outubro de 2025, a 1,36 UA do Sol
Aproximação Máxima da Terra 19 de dezembro de 2025, a 270 milhões de km

Uma jornada de bilhões de anos

A trajetória do 3I/ATLAS sugere que ele pode ser o cometa mais antigo já observado. Estudos indicam que sua idade pode ser superior a 7 bilhões de anos, o que o tornaria mais velho que o próprio Sistema Solar, que tem “apenas” 4,6 bilhões de anos .

Isso significa que ele nos conta o que estava acontecendo no início da história da galáxia“, explica o professor de astrofísica Chris Lintott, da Universidade de Oxford. Os astrônomos acreditam que ele se formou durante o nascimento de um sistema estelar distante e, de alguma forma, foi ejetado para o espaço interestelar, onde vagou por bilhões de anos até chegar aqui.

Fenômenos naturais vs. Especulações alienígenas

O comportamento do 3I/ATLAS ao se aproximar do Sol gerou um frenesi de especulações. Ele exibiu uma aceleração não gravitacional, ou seja, moveu-se mais rápido do que o esperado apenas pela ação da gravidade . Isso levou o astrofísico de Harvard, Avi Loeb, a especular sobre a remota possibilidade de um “motor de foguete tecnológico” estar impulsionando o objeto.

Além disso, a detecção de níquel em sua composição e uma suposta mudança de cor de avermelhado para azul alimentaram a ideia de que poderia ser uma nave alienígena . Personalidades como Elon Musk e Kim Kardashian comentaram sobre o caso, ampliando sua repercussão nas redes sociais.

No entanto, a NASA e a esmagadora maioria da comunidade científica afirmam que há explicações naturais para todos esses fenômenos. A aceleração, por exemplo, é um efeito bem conhecido da desgaseificação, quando o calor do Sol transforma o gelo do cometa diretamente em gás, e os jatos que emanam do núcleo atuam como propulsores naturais . Já a presença de níquel também foi observada em outros cometas, incluindo o interestelar 2I/Borisov, em 2019.

Durante a aproximação do 3I/ATLAS, o governo norte-americano enfrentou um shutdown que coincidiu justamente com o período mais crítico de coleta e divulgação de dados, algo que muitos consideraram, no mínimo, curioso. Embora paralisações administrativas sejam comuns nos EUA por questões orçamentárias, o timing gerou estranheza entre pesquisadores e entusiastas, alimentando a sensação de que o silêncio institucional naquele momento parecia grande demais para ser apenas coincidência. O vazio de informações oficiais durante esses dias acabou despertando ainda mais perguntas do que respostas, reforçando a aura de mistério em torno do visitante interestelar.

Um esforço global de observação

A passagem do 3I/ATLAS mobiliza uma frota de telescópios e missões espaciais. O Telescópio Espacial Hubble e o Telescópio Espacial James Webb estão entre os instrumentos que vêm coletando dados cruciais sobre seu tamanho e composição química . Observações já revelaram que o cometa é incomumente rico em dióxido de carbono e contém gelo d’água, monóxido de carbono e outras moléculas.

A NASA anunciou que realizará um evento especial em 19 de novembro de 2025 para compartilhar imagens do cometa capturadas por suas diversas missões . Do solo, astrônomos amadores com telescópios a partir de 8 polegadas (203 mm) também poderão tentar avistar o visitante interestelar.

A despedida e o legado

O cometa já passou pelo seu ponto mais próximo do Sol (periélio) no final de outubro e agora se prepara para seu adeus. Sua maior aproximação da Terra está marcada para 19 de dezembro de 2025, mas não há qualquer risco de colisão, já que ele estará a uma distância segura de 270 milhões de quilômetros.

Sua partida, no entanto, não será em vão. “Acreditamos que existam bilhões de bilhões de bilhões deles na galáxia e observamos apenas três”, lamenta Chris Lintott . Com a entrada em operação de novos observatórios, como o Observatório Vera Rubin, no Chile, os cientistas preveem a descoberta de dezenas de outros objetos interestelares na próxima década.

Cada um desses viajantes cósmicos é uma cápsula do tempo, carregando segredos sobre a formação de outros sistemas estelares. O 3I/ATLAS, com sua idade venerável, é talvez um dos mensageiros mais preciosos, oferecendo uma janela única para um passado muito anterior ao nosso próprio mundo.