(30) Combate à corrupção em Portugal continua “globalmente insatisfatório”
30 de julho de 2025 – Apesar de reformas recentes e mudanças legislativas, opiniões convergem sobre a fragilidade da resposta portuguesa ao combate à corrupção. Organismos como o GRECO (Conselho da Europa), a Transparency International (TI Portugal) e a OCDE atribuíram ao país desempenho insatisfatório, com aplicação parcial de recomendações, queda no Índice de Perceção da Corrupção (CPI) e ausência de condenações por suborno internacional.
Portugal registrou sua pior pontuação histórica no CPI 2024, com apenas 57 pontos, caindo nove posições no ranking global e ocupando a 43ª posição entre 180 países. A deterioração é reflexo, segundo especialistas, de perceção de abuso de poder público para benefício privado, nepotismo e fraqueza na transparência dos contratos estatais .

Comprometimento parcial das recomendações internacionais
O GRECO constatou que Portugal implementou apenas 30% das recomendações que envolvem mecanismos de integridade para políticos, juízes e fiscais. Medidas fundamentais continuam incompletas, como sanções para deputados que não declaram património e falhas na operacionalização da Entidade para a Transparência .
Falta de eficácia prática, apesar de avanços legislativos
Embora tenha criado a Estratégia Nacional Anticorrupção e revisado legislações como o Pacote de Transparência (2019), o país falha na execução operacional. TI Portugal aponta ausência de metas claras, falta de independência financeira e falhas na implementação de mecanismos para prevenir conflitos de interesse .
Nenhuma condenação por suborno internacional em duas décadas
Segundo a OCDE, desde 2000 Portugal ainda não obteve nem uma única condenação por corrupção em transações internacionais. Muitos casos são encerrados prematuramente sem investigação aprofundada, refletindo falta de comprometimento com a convenção anticorrupção da entidade .
Investigações de alto impacto: Operação Influencer e recaídas na confiança pública
A Operação Influencer, iniciada em 2023, resultou na queda do então primeiro-ministro António Costa e seu chefe de gabinete. A investigação envolvia concessões públicas para projetos estratégicos como mineração de lítio e produção de hidrogéneo. O episódio intensificou críticas sobre a ligação entre política e negócios e deteriorou ainda mais a perceção pública sobre integridade.
Margarida Mano, presidente da TI Portugal, destacou que a resposta do governo permanece insuficiente, por não incluir mecanismos imparciais de fiscalização, metas mensuráveis e sanções efetivas. A estrutura MENAC, por exemplo, ainda não conta com autonomia orçamental nem apoio técnico adequado para atuar efetivamente.
Em resposta, o governo anunciou reformas previstas no Programa de Governo, incluindo modificar a estrutura do MENAC para modelo colegial, reduzir a duração dos mandatos e reforçar a fiscalização nas autarquias. Ainda assim, críticos questionam se essas mudanças serão suficientes para transformar o quadro atual.
Novas medidas anticorrupção na agenda
O governo propôs em junho de 2024 a autorização para confisco de bens de suspeitos, mesmo sem condenação criminal — medida polêmica que busca enviar uma mensagem de tolerância zero contra a corrupção. O projeto de lei ainda depende de aprovação parlamentar e enfrenta críticas por possíveis impactos na presunção de inocência.
O declínio de Portugal no CPI reflete uma tendência negativa contínua desde 2015. O país está abaixo da média da Europa Ocidental e enfrenta forte pressão internacional para consolidar um combate eficaz à corrupção. Situações como o Vistos Gold também são citadas como exemplo de políticas públicas de risco que agravam vulnerabilidades sistémicas.
🔍 Tabela de avaliação geral
| Entidade / Mecanismo | Situação atual em Portugal | Observações principais |
|---|---|---|
| GRECO (Conselho da Europa) | Apenas 30 % das recomendações implementadas | Necessita sanções, transparência e fiscalização |
| Transparência Internacional Portugal | CPI em queda, percepção de fragilidade institucional | Falta de metas e independência das entidades |
| OCDE / Convenção contra o Suborno | Nenhuma condenação por suborno internacional | Casos fechados prematuramente, eficácia questionada |
| Governo Nacional | Reestruturação do MENAC e novas medidas propostas | Medidas ainda carecem de aplicação consistente |
| Casos notórios (Influencer, Tutti‑Frutti, Submarinos) | Associados à negligência e impunidade | Impacto negativo sobre a perceção pública |
Conclusão
Portugal enfrenta um momento crítico no combate à corrupção: apesar de avanços normativos e alguns esforços institucionais, os resultados efetivos ainda são escassos. A confiança pública e reputação internacional estão em declínio, exigindo ação rápida, reformas estruturais e compromisso político para reverter essa trajetória. Somente com transparência, independência institucional e aplicação efetiva da lei será possível recuperar a integridade do sistema público e elevar Portugal na luta contra a corrupção.