Dois casos recentes no Serviço Nacional de Saúde (SNS) revelam tensões diferentes, mas complementares, que afetam utentes e profissionais. De um lado, um médico dermatologista ligado ao Hospital de Santa Maria faturou mais de 700 mil euros em cirurgias realizadas ao fim‑de‑semana; do outro, um estudo alerta para uma redução abrupta no número de cirurgias oncológicas realizadas no SNS, colocando doentes em risco.

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Faturação elevada em regime extra

Segundo relatórios da Inspeção‑Geral das Atividades em Saúde (IGAS), o dermatologista Miguel Alpalhão realizou centenas de cirurgias em regime de produção adicional fora do horário normal, incluindo fins‑de‑semana e dias de descanso, faturando cerca de 714 mil euros entre 2021 e 2025. O profissional emitiu, aprovou e codificou muitas dessas intervenções, levantando questões sobre a transparência e o controlo interno do hospital.

Fontes hospitalares apontam que a prática decorre de blocos cirúrgicos atribuídos ao médico para turnos extra, pagos em regime semi‑privado. A administração do hospital limitou posteriormente estas práticas, alterando procedimentos de codificação e restringindo cirurgias extras a casos oncológicos. O relatório da IGAS foi enviado ao Ministério Público.

Especialistas consideram que estes casos revelam lacunas nos mecanismos de fiscalização e de segregação de funções, podendo afetar a equidade no acesso aos cuidados de saúde. “É um alerta para a necessidade de maior supervisão sobre blocos cirúrgicos extra, principalmente em serviços com grande procura”, explica um auditor da IGAS.


Cirurgias oncológicas: atrasos e risco para doentes

Enquanto isso, o SNS enfrenta uma queda significativa nas cirurgias oncológicas. Dados recentes da Entidade Reguladora da Saúde indicam que, em junho de 2025, mais de 7.500 utentes aguardavam cirurgia oncológica, sendo que 1.488 já tinham ultrapassado o tempo máximo recomendado para intervenção, sem garantias de data marcada.

O estudo alerta que a redução não é apenas sazonal, mas estrutural, com impactos diretos na morbidade e prognóstico dos doentes. Especialistas apontam causas variadas, incluindo sobrecarga hospitalar, limitações logísticas e efeito prolongado da pandemia, mas a falta de recursos humanos e a sobreposição de cirurgias opcionais podem ter agravado a situação.

Associações de doentes alertam que os atrasos forçam muitos utentes a recorrer ao setor privado, aumentando desigualdades no acesso a tratamentos essenciais. O Ministério da Saúde afirmou estar a implementar medidas de reforço, mas detalhes sobre prazos e financiamento permanecem incertos.


Dois lados de uma mesma tensão

O contraste entre os dois casos evidencia um dilema central no Serviço Nacional de Saúde, enquanto alguns profissionais conseguem elevados ganhos através de regimes extra, outros utentes enfrentam atrasos críticos em tratamentos essenciais.

O sistema enfrenta perguntas difíceis: como conciliar incentivos individuais com a necessidade de equidade? Até que ponto a fiscalização e a transparência são suficientes?

Para uma reportagem completa, é fundamental ouvir IGAS, administração hospitalar, Ordem dos Médicos, associações de doentes e especialistas em oncologia, e cruzar dados sobre produção cirúrgica, listas de espera e blocos disponíveis.

Os casos abordam a importância de equilibrar remuneração e acesso público, destacando a necessidade urgente de políticas de supervisão mais rigorosas, transparência e gestão eficiente de recursos no Serviço Nacional.


Na prática, esses dois casos significam impactos diretos e indiretos para a população portuguesa:

1. Acesso desigual a cuidados

  • Enquanto um médico consegue faturar centenas de milhares de euros em cirurgias ao fim‑de‑semana, muitos utentes esperam mais tempo por intervenções essenciais, especialmente cirurgias oncológicas.
  • Ou seja, quem consegue pagar ou se enquadra no regime “extra” pode ser atendido mais rápido, enquanto outros ficam retidos em listas de espera do SNS.

2. Atrasos em tratamentos críticos

  • A redução de cirurgias oncológicas implica que pacientes com cancro podem ter prognóstico pior, porque a cirurgia é muitas vezes o passo mais urgente para salvar vidas.
  • Cada semana de atraso pode significar agravamento da doença, mais complicações e tratamentos mais longos ou mais agressivos no futuro.

3. Perda de confiança no Serviço Nacional de Saúde.

  • Para a população, a percepção é de que alguns profissionais se beneficiam financeiramente em detrimento do coletivo, gerando sensação de injustiça.
  • Isso pode levar as pessoas a recorrer ao setor privado ou a perder confiança na capacidade do SNS de atender de forma equitativa.

4. Pressão sobre recursos públicos

  • O caso do dermatologista mostra como recursos humanos e blocos cirúrgicos podem ser direcionados para regimes lucrativos, potencialmente desviando-os de casos prioritários.
  • Isso reforça listas de espera, aumenta sobrecarga hospitalar e limita a capacidade do SNS de responder a emergências ou cirurgias vitais.